sexta-feira, 28 de julho de 2023

Uma conversa qualquer

- Ai mãe, tenho medo, será que vai dar certo? - Não se preocupe filha, alguma coisa vai dar certo. Veja, eu não sabia o que queria da minha vida e acabei trabalhando em banco, e eu adoro aquilo, nem sei explicar. O seu pai, que era o maior vagabundo na escola se tornou engenheiro e está super bem. E a gente cuidou bem de vocês, olha aí o seu irmão, estudando para caramba para ser médico... e você foi muito bem na escola também. É inteligente e esperta. A gente cuidou bem de vocês e continua cuidando quando precisa. - É, mas minha irmã disse que ela só sabe fazer cocô. Porque o que ela mais faz é cagada. - Sim, mas ela também diz o quê? A filha olha nos olhos da mãe e as duas, fazendo caras e vozes estranhas, dizem ao mesmo tempo: -"Pelo menos, eu sou uma profissional da cagada... kkkkkkkkk" - Então, todo mundo é bom em alguma coisa...

sexta-feira, 23 de junho de 2023

No presente há dor

A cada brilho das luzinhas de Natal refletido no azulejo, eu lembro flashes de nós dois. 
Nesta mesma sala, neste mesmo chão, salpicado de mini estrelas, fizemos amor tão gostoso. 
Fazíamos baixinho, para não acordar a casa, e você segurava firme a sua risada após gozar. 
As luzinhas iluminavam seus lábios, brilhavam em seus olhos, acendiam seus seios.
E no meio dos sussuros, diante daquela visão, eu tremi ao perceber que você era o meu mundo.
E hoje, as luzinhas iluminam um chão vazio de azulejo branco e refletem nas minhas lágrimas. 
No presente, só me restam as lembranças que tive com você. 
Eu suspiro de tristeza e sussurro a dor de perder um mundo...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Minha queda, minha base

    Um carro se perdeu na curva e invadiu a contramão, sendo atingido com força. A batida foi muito feia: peças de carro voando por todos os lados, sonhos e vidas também. Foi por esse momento que se rasgou meu peito, minha mente e minha alma. É desses eventos que deixam marcas eternas. É quando as ações de um único momento impactam toda a posteridade. É o bater de asas da borboleta.

    Eu chorei, eu sofri, eu desabei em queda livre. E eu nem tinha ideia do que era tudo aquilo. Só tinha sentimento, sofrimento e saudade. Perdi grande parte da minha base, que até hoje não achei e sei que não acharei mais. Existem colos que são insubstituíveis.

    E foi aprendendo com esse sofrimento, com essa sensação de estar solto e vulnerável em um mundo agitado e bruto, que hoje procuro dar o abraço, o colo e a base que forem necessários para uma parceria reconfortante, ou para um crescimento saudável, para aqueles que estão próximos a mim.

    Quero eu ser uma base, uma rede de segurança que possibilite aos outros tentar saltos maiores, sem que sintam tanto medo da queda.

sábado, 24 de junho de 2017

Sobre passar cafés e o tempo...

Certa vez, um vendedor abordou um senhor que aparentava seus lúcidos oitenta e poucos anos:
- Boa tarde senhor! Gosta de café?!
- Claro! Quem não gosta, né meu filho!?
- Ah! Todos nós, com certeza!
- Minha senhora sempre faz um ótimo café para mim.
- Que coisa boa! E como ela prepara o seu café?
- Passa no coador de pano... fiz até um apoio de arame para segurar o coador para ela...
- Bem, então! Deixa eu te apresentar uma coisa que vai revolucionar a cozinha de vocês. A cafeteira digital Smart Morning Plus Wi-fi! Com essa bela máquina a sua senhora não vai precisar se preocupar com coador de pano, com suporte, com nada! Esquece! Essa cafeteira faz tudo! Ela até mói os grãos se o senhor quiser. O senhor programa a hora em que deseja o seu café pronto e ela faz! E pode até deixar ela preparada, põe o café aqui em cima e a água aqui nesse compartimento, e o senhor aciona ela pelo aplicativo do smartphone, pode fazer isso da rua, e quando chegar em casa o café estará pronto e quentinho esperando vocês!
- Humm... obrigado meu jovem, mas prefiro o café da minha senhora. Ela nem gosta dessas cafeteiras. E nós temos um bom e velho moedor de café de ferro... tem até um...
- Ah! Desculpe senhor, mas o senhor já experimentou o cafezinho da nossa cafeteira?! Especialistas deram notas excelentes para o nosso café. É da melhor qualidade! E eles dizem que o café do coador de pano não tem tanta qualidade, parece que deixa aquele gostinho de cafés antigos, passados anteriormente.
- Olha rapaz! Esses especialistas não sabem nada, podem até entender do café deles e dessa máquina aí... eu entendo do meu! Isso de gosto de café antigo é frescura deles. E você quer me convencer a tomar um café com gosto de plástico, de eletrônico, de digital, de internet, de não sei o que?! Pois saiba que o melhor do café coado no pano é justamente o sabor, o cheiro e a lembrança dos cafés passados!... E passar bem!
Enquanto o senhor ia embora com seus passos lentos mas firmes, o vendedor enxergou nele a figura de seu próprio avô e pensou, quase em voz alta: “saudades dos meus avós! Acordar na casa deles, com aquele cheirinho de café. Eu acordava cedo, com a vontade de brincar com os primos, e a vó passava o café no coador de pano também..." E o seu pensamento voou para aquelas manhãs, em que a luz do Sol logo cedo atravessava os vidros da janela da cozinha e iluminava de amarelo todo o ambiente... fazia brilhar a água que caia, o café que saia do coador, o bule tão bem areado e a fumaça que subia serpenteando o ar e os cabelos brancos da avó. Aquela fumaça parecia dominar todo o ambiente com uma aura mágica quase encantada... "e o cheirinho do café... hummmm... mas preciso vender meu peixe agora."
- Boa tarde senhor! Gosta de café?!

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Na própria ciência aprendi que o ser não é uma mera constituição de células, ossos, sangue e DNA . Na dialética natureza as somas não são lineares, 2 e 2 nem sempre são quatro, são probabilidades quase infinitas guiadas pelos caminhos tortuosos do Caos. Um ser não é só uma colônia de células, uma sociedade não é só um amontoado de seres, o cérebro não é só um músculo... mas são resultados de complexos arranjos que poderiam ter sido diferentes, ao longo do tempo e do espaço, caso alguns eventos aleatórios não tivessem existido ou ocorressem de outra forma... probabilidades quase infinitas. E em cada um e em cada coisa reside um pouco dessa infinitude... só é preciso abrir a mente, mais que os olhos, para enxergar...

domingo, 26 de outubro de 2014

Me diga

Me diga
se a falta que eu sinto
de seus lábios, seus abraços
e seu calor a me envolver
é amor.

De dia,
um sorriso me acomete
e sua imagem se repete,
me fazendo amanhecer
com louvor.

Antiga,
sua foto se revela,
qual paisagem na janela
ao entardecer,
um torpor.

Vazia,
a minha noite se anuncia,
quando, no final do dia,
posso perceber
minha dor.

Eu sinto
em meu leito essa saudade,
com intensa intensidade,
que me faz estremecer
de pavor.

Confirmo,
com o violão iluminado
(num reflexo molhado
que pareceu até chover),
que o que sinto
por você
é amor.

Ruínas em construção

Eram épocas de vivas e glórias,
em que permeava no ar
o odor caramelo das maçãs do amor.
Toda vida preenchia o material e ali se encerrava.
Toda certeza tinha seu altar
e seu quarto de veneração.
Os heróis estavam imunes e altivos.

Hoje, só o que me resta de concreto
são as ruínas de um antigo palácio de festas.
Onde a Lua, quando não o invade totalmente,
salpica o chão de estrelas
e as poucas paredes que se aguentam
estão recheadas de frestas e buracos.

Isso é só a ação do tempo,
quebrando as linhas retas.
As revoluções acumulando
suas ações na história.
E a natureza mostrando sua resiliência
frente ao que é simples artifício.

E assim seguem as minhas ruínas,
em permanente construção...